Dezembro de 2007
E a roda fecha-se…
Logo de início abriu a Bíblia um dos novos: S. João, 1,1. Outro sinal? Era a nossa saída de Natal e as palavras de S. João soavam proféticas:
“No princípio era o Verbo; e o Verbo estava em Deus; e o Verbo era Deus… A Luz brilhou nas trevas…”
Ainda não tínhamos iniciado a nossa caminhada da noite e já um dos nossos amigos se acercava de nós. Não aguardou muito a preparação do que cada um trazia: eram sobras (óptimas!) de nada mais nada menos do que de quatro confeitarias (doces, salgados e bolo-rei), cerca de 400 sandes preparadas por nós, 20 litros do já tradicional sumo de limão, alguma fruta, chocolates, bombons e amêndoas. Merenda simples mas já com ar de festa. Também levávamos muita roupa e alguns cobertores.
Após a nossa oração iniciámos mesmo ali a distribuição pois que, após o primeiro depressa apareceram mais um…outro… outro… e outro!
E os conselhos iam saindo à medida que os servíamos. Semente lançada em terreno diverso mas que, às vezes, acerta em terra boa… Nunca se perde em tentar! E assim vamos fazendo.
Continuámos a digressão pela cidade. Os utentes iam aparecendo a conta-gotas, mas em número menor do que esperávamos. Na Câmara juntámo-nos com os Samaritanos e com a IPAC, que distribuía roupas. Fomos os últimos a sair dali e seguimos ao Viaduto onde também estava pouca gente. Passámos pela Isaurinha. Estava doente, com febre. Ligámos aos MM pondo-os a par da situação para que viessem vê-la, como de facto aconteceu.
Continuámos pelo Carregal e Urgência do Santo António. A nota mais triste da noite apareceu-nos aqui: no meio de vários adultos vimos dois jovens, um de 15 e outro de 16 anos! Não resistimos a perguntar o que faziam ali àquela hora da noite.
- Vim com o meu primo! - disse uma.
- Com aqueles amigos! - disse o outro… e apontavam-no-los.
Primos… amigos…
- E a Escola?
- Não ando na Escola. Não gosto! - disse a primeira.
- Em que ano estás?
- No 7º., mas não acabei.
Tens que estudar, procurar tirar um curso, nem que seja prático…
- Ah!… mas eu não gosto de estudar!
- Mas olha que se não estudares e procurares tirar um curso quando fores adulta ficas sempre com o trabalho que os outros não quiserem! Gostas disso?
Encolheu os ombros como quem pensa que isso ou está muito distante e depois se verá ou que pouco lhe interessa. Pena!…
Quanto ao rapazito ainda está pior: abandonou ao 3º. ano. E tem 15!…
É caso para perguntar onde anda a SS ou o que faz o Ministério da Educação para evitar não só o insucesso escolar de ambos, e de outros em situação idêntica, como também para garantir o sucesso humano de ambos! A não se fazer nada poderão ser mais dois a acrescentar ao rol dos marginais e dos marginalizados deste país e desta cidade.
Procurámos saber onde moravam para futuras diligências.
Pelo caminho ia ficando a roupa e o farnel diminuía…
Desembocámos no Aleixo ainda bem fornecidos mas a romaria que se formou fez-nos temer que não chegasse para todos o muito que ainda nos restava. Amontoavam-se ávidos, cabeças juntas em cacho, olhares interrogativos quanto ao que havia, procuravam espreitar por sobre os ombros de uns e de outros para dentro do carro!
- Posso comer aquele bolo?
- Eu gostava daquele, pode-mo dar?
E assim por diante. Claro que satisfazíamos os pedidos que iam fazendo.
Começámos a racionar as doses e os últimos começaram a ser contemplados com pão simples quando as sandes acabaram…
Dali sobrou apenas roupa, roupa que não encontrou dono desta vez. E continua a sobrar a miséria moral e humana materializada nas vidas daqueles irmãos da mesma raça e da mesma estirpe a que pertencemos, também filhos de Deus, mas que as próprias opções, as opções de outros, a acção ou inacção de muitos fizeram descambar no que são: farrapos humanos, imitações de gente, espectros em pé, folha de prata na mão, empurrados empurrando os outros na mesma ponte das barcas da desgraça em que se encontram…
Meio atónitas, a Cátia e a Tânia, duas jovens de 16 e 18 anos que nos acompanharam pela primeira vez, deviam perguntar-se se se encontravam ainda no planeta onde nasceram ou se tinham por acaso transitado para um qualquer filme de terror dos muitos que exibem na televisão ou nos cinemas!
- Quando te decides?
À pergunta trivial responde um encolher de ombros, confissão de impotência ou de adiamento sem horizonte…
Mas lá vamos insistindo, porfiando… E é com um sentimento de tristeza que nos despedimos desejando-lhes “uma boa noite”, ou “Feliz Natal!”.
Dou comigo a pensar que “boa noite” podem ter a dormir ao relento, num canto ou vão de escada, num portal, numa casa abandonada, num sítio sem gente, sem ordem nem asseio, sem o mínimo conforto, sem resguardo nem segurança?
E se ter “perú” pelo Natal, bacalhau e batatas com fartura na Consoada vai fazer deles pessoas fartas, alegres e felizes durante todo o ano?
Ou se a partilha natalícia não será apenas uma forma de a sociedade ficar numa relativa paz consigo própria, uma forma de apaziguar os demónios do remorso para que possa continuar impávida e egoistamente a disfrutar da abundância durante todo o ano sem sentir obrigação de a partilhar com a miséria que o circunda?
Sim e não, ouço-me responder. Não é esta partilha de Natal, nem a nossa partilha de todo o ano que irão repor a justiça social e humana. Mas, sem ela, a miséria e a injustiça serão ainda maiores. Por isso teremos de continuar no mesmo rumo, partilhando e levando a nossa amizade a quem anda tão arredado dela, levando um pouco de carinho a quem o não tem, levando uma palavra de alento, de consolo, de conselho, e de ânimo a quem não está muito habituado a recebê-las. E é por isso que temos também a coragem de lhes ir desejando sempre “um bom dia”, “uma boa noite”, e agora também
“UM BOM, UM SANTO, E POR ISSO, FELIZ NATAL”.
Grucoa
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