Saturday, December 15, 2007

Dezembro de 2007

                  
                     E a roda fecha-se…

E terminou o segundo ano da nossa nova forma de estar na rua. É caso para dar Graças. E, curiosamente, nesta última saída eramos 12!… Nunca tal acontecera até aqui: umas vezes comparecíamos 2, outras 3 e raramente acima disso. 12 apóstolos a continuar?
Logo de início abriu a Bíblia um dos novos: S. João, 1,1. Outro sinal? Era a nossa saída de Natal e as palavras de S. João soavam proféticas:

“No princípio era o Verbo; e o Verbo estava em Deus; e o Verbo era Deus… A Luz brilhou nas trevas…”

Ainda não tínhamos iniciado a nossa caminhada da noite e já um dos nossos amigos se acercava de nós. Não aguardou muito a preparação do que cada um trazia: eram sobras (óptimas!) de nada mais nada menos do que de quatro confeitarias (doces, salgados e bolo-rei), cerca de 400 sandes preparadas por nós, 20 litros do já tradicional sumo de limão, alguma fruta, chocolates, bombons e amêndoas. Merenda simples mas já com ar de festa. Também levávamos muita roupa e alguns cobertores.
Após a nossa oração iniciámos mesmo ali a distribuição pois que, após o primeiro depressa apareceram mais um…outro… outro… e outro!
E os conselhos iam saindo à medida que os servíamos. Semente lançada em terreno diverso mas que, às vezes, acerta em terra boa… Nunca se perde em tentar! E assim vamos fazendo.

Continuámos a digressão pela cidade. Os utentes iam aparecendo a conta-gotas, mas em número menor do que esperávamos. Na Câmara juntámo-nos com os Samaritanos e com a IPAC, que distribuía roupas. Fomos os últimos a sair dali e seguimos ao Viaduto onde também estava pouca gente. Passámos pela Isaurinha. Estava doente, com febre. Ligámos aos MM pondo-os a par da situação para que viessem vê-la, como de facto aconteceu.

Continuámos pelo Carregal e Urgência do Santo António. A nota mais triste da noite apareceu-nos aqui: no meio de vários adultos vimos dois jovens, um de 15 e outro de 16 anos! Não resistimos a perguntar o que faziam ali àquela hora da noite.
- Vim com o meu primo! - disse uma.
- Com aqueles amigos! - disse o outro… e apontavam-no-los.
Primos… amigos…
- E a Escola?
- Não ando na Escola. Não gosto! - disse a primeira.
- Em que ano estás?
- No 7º., mas não acabei.
Tens que estudar, procurar tirar um curso, nem que seja prático…
- Ah!… mas eu não gosto de estudar!
- Mas olha que se não estudares e procurares tirar um curso quando fores adulta ficas sempre com o trabalho que os outros não quiserem! Gostas disso?
Encolheu os ombros como quem pensa que isso ou está muito distante e depois se verá ou que pouco lhe interessa. Pena!…
Quanto ao rapazito ainda está pior: abandonou ao 3º. ano. E tem 15!…
É caso para perguntar onde anda a SS ou o que faz o Ministério da Educação para evitar não só o insucesso escolar de ambos, e de outros em situação idêntica, como também para garantir o sucesso humano de ambos! A não se fazer nada poderão ser mais dois a acrescentar ao rol dos marginais e dos marginalizados deste país e desta cidade.
Procurámos saber onde moravam para futuras diligências.

Pelo caminho ia ficando a roupa e o farnel diminuía…

Desembocámos no Aleixo ainda bem fornecidos mas a romaria que se formou fez-nos temer que não chegasse para todos o muito que ainda nos restava. Amontoavam-se ávidos, cabeças juntas em cacho, olhares interrogativos quanto ao que havia, procuravam espreitar por sobre os ombros de uns e de outros para dentro do carro!
- Posso comer aquele bolo?
- Eu gostava daquele, pode-mo dar?
E assim por diante. Claro que satisfazíamos os pedidos que iam fazendo.
Começámos a racionar as doses e os últimos começaram a ser contemplados com pão simples quando as sandes acabaram…

Dali sobrou apenas roupa, roupa que não encontrou dono desta vez. E continua a sobrar a miséria moral e humana materializada nas vidas daqueles irmãos da mesma raça e da mesma estirpe a que pertencemos, também filhos de Deus, mas que as próprias opções, as opções de outros, a acção ou inacção de muitos fizeram descambar no que são: farrapos humanos, imitações de gente, espectros em pé, folha de prata na mão, empurrados empurrando os outros na mesma ponte das barcas da desgraça em que se encontram…
Meio atónitas, a Cátia e a Tânia, duas jovens de 16 e 18 anos que nos acompanharam pela primeira vez, deviam perguntar-se se se encontravam ainda no planeta onde nasceram ou se tinham por acaso transitado para um qualquer filme de terror dos muitos que exibem na televisão ou nos cinemas!

- Quando te decides?
À pergunta trivial responde um encolher de ombros, confissão de impotência ou de adiamento sem horizonte…
Mas lá vamos insistindo, porfiando… E é com um sentimento de tristeza que nos despedimos desejando-lhes “uma boa noite”, ou “Feliz Natal!”.

Dou comigo a pensar que “boa noite” podem ter a dormir ao relento, num canto ou vão de escada, num portal, numa casa abandonada, num sítio sem gente, sem ordem nem asseio, sem o mínimo conforto, sem resguardo nem segurança?
E se ter “perú” pelo Natal, bacalhau e batatas com fartura na Consoada vai fazer deles pessoas fartas, alegres e felizes durante todo o ano?
Ou se a partilha natalícia não será apenas uma forma de a sociedade ficar numa relativa paz consigo própria, uma forma de apaziguar os demónios do remorso para que possa continuar impávida e egoistamente a disfrutar da abundância durante todo o ano sem sentir obrigação de a partilhar com a miséria que o circunda?

Sim e não, ouço-me responder. Não é esta partilha de Natal, nem a nossa partilha de todo o ano que irão repor a justiça social e humana. Mas, sem ela, a miséria e a injustiça serão ainda maiores. Por isso teremos de continuar no mesmo rumo, partilhando e levando a nossa amizade a quem anda tão arredado dela, levando um pouco de carinho a quem o não tem, levando uma palavra de alento, de consolo, de conselho, e de ânimo a quem não está muito habituado a recebê-las. E é por isso que temos também a coragem de lhes ir desejando sempre “um bom dia”, “uma boa noite”, e agora também

                       “UM BOM, UM SANTO, E POR ISSO, FELIZ NATAL”.

Grucoa

franjassociais@gmail.com

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Tuesday, December 4, 2007

A nossa visita às ruas do Porto em Dezembro e outros eventos


Caros amigos:

Aproxima-se a data da nossa saída de Dezembro, que será a 12.

Mantém-se o local de partida, no topo da Avª. da Venezuela, no entroncamento com a R. de António Cardoso.

A comparência será às 21,00 horas, de modo a podermos iniciar a volta pelas ruas do Porto às 21,30 h. O intervalo será utilizado para arrumar as contribuições que cada um(a) trouxer preparando a
distribuição de alimentos e de roupas.

As roupas devem ser próprias para o frio, designadamente camisolas, casacos, parkas, calças, meias, roupa interior, sobretudo de homem.

Antes da saída rezar-se-á a oração habitual e far-se-á uma leitura da Bíblia.

A base dos alimentos será constituído pelas sandes e sumo a copo.

Completarão o menu do dia o que angariarmos nas confeitarias, e o que a sensibilidade de cada um aconselhar.

Como é época de Natal, cada um deve comprar chocolates em barras para distribuir - vamos tentar reunir pelo menos 100 barritas.

E é tudo por hoje quanto à preparação da saída.

Iniciativas dirigidas aos sem-abrigo na época de Natal:

Em Dezembro e em tempo de Natal vão realizar-se no Porto várias iniciativas em apoio e voltadas para os sem-abrigo, a que devemos dar o nosso contributo e comparticipação:

  -  Dia 12, será dia da nossa ida à rua;
  -  Dia 20 de Dezembro, às 21h30, realizar-se-á a Missa de Natal dos Sem-abrigo na Igreja da Trindade;
  - Dia  3 de Janeiro, na cripta da Igreja de Nª. Srª. da Conceição (ao Marquês), terá lugar o já tradicional JANTAR DE NATAL, que é organizado por iniciativa da Paróquia.

Jantar de Natal:

Para este será necessária a nossa contribuição por uma ou várias das seguintes formas:

- angariando ou doando os géneros necessários (1),
- fornecendo a nossa disponibilidade para ajudar na confecção (2),
- no serviço (3),
- na animação e canto (4),
- no atendimento (5),
- na arrumação (6),
- ou fazendo simplesmente companhia aos nossos amigos  de muitas
noites e de muitas das ruas desta cidade (7).

Mas, quanto a este assunto, deverão aguardar novas indicações a partir do dia 9 deste mês, data em que o Pároco fica mais disponível para poder dar continuidade à organização do jantar.
 
Por isso, os géneros a angariar estão ainda dependentes da ementa que só será conhecida a partir da referida data.

Entretanto, e independentemente da ementa que vier a ser escolhida, pode desde já adiantar-se que será sempre necessário o seguinte:

- Batatas: 60 Kg

- Couve: 30 Kg

- Cebolas: 20 Kg

- Fruta diversa (maçã, pêra, banana): 50 Kg

- Bolos-Rei: 40

- Vinho do Porto (15 litros)

- Sumos naturais ou sem gás (40 litros)

- Filhós, rabanadas e sonhos

- Chocolates e rebuçados

Mas… ATENÇÃO!…

Os donativos só deverão ser entregues na Paróquia a partir do Natal por não haver possibilidade de armazenagem, servindo  este alerta apenas para se irem preparando.

Em todo o caso, e para efeitos de organização, gostaria que me fossem informando do que cada um ou grupo tem possibilidade e pretende doar para o dito fim, de modo a poder dar conhecimento do que ainda falta e do que já basta.

Um abraço amigo a todos.

Grucoa



franjassociais@gmail.com

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