Em Agosto, na rua…
Tempo de férias
Não vai ser longo este relato.
Na rua não há férias mas notam-se diferenças nesta época do ano.
É o clima que quase dispensa os cobertores, é a roupa mais leve que é procurada, são novas caras que mudam de poiso, são os turistas que aparecem um pouco misturados na grande feira humana em que se transforma a cidade mesmo à noite.
Permanece neles a fome, a sede, a ausência de aconchego, o abandono, a pouca sorte, a fatalidade em que se transformou a vida de muitos.
Falta-lhes a humanidade, o carinho, a quentura de um lar, a harmonia, o equilíbrio, o amor.
Sobra-lhes o oportunismo da sobrevivência nesta selva humana, o desleixo, e a miséria.
Permanece a frieza e a pobreza do poder de intervenção oficial, a burocratização das situações, a demora das soluções, a impessoalidade dos tratamentos, a numeração dos casos…
Falta o rasgo, rapidez e oportunidade na intervenção, falta um verdadeiro tratamento de emergência… E falta também poder intervir em todas as situações em que a miséria grita escancarada, evidente e em vão…
Sobra burocracia emparedada em processos, papéis e horários, e sobram também técnicos em gabinetes e necessitados nas ruas…
É longa a lista do que há de carências e do que falta em apoios. Não se vislumbra mudança à vista!
Por isso, teimosamente, continuamos e continuaremos a descer aos locais onde estão à nossa espera e à espera de quantos se disponham a dar-lhes a mão, seja por dever ou por devoção.
Na Quarta-feira, dia 8, nem tudo correu como planeáramos. Mas no final tudo acabou por bater certo.
Levávamos muitas sandes (mais de duzentas), alguns bolos, sumo de limão, leite com chocolate, e outros sumos em pacote. E roupa.
Por proposta de duas companheiras que tinham ficado muito sensibilizadas com a fome que encontrámos no Aleixo, decidimos começar por lá. Assim, depois da oração e da leitura da 1ª. Carta de S. Paulo aos Corintios, 11, 1-16, seguimos até ao Aleixo. E, se à chegada até parecia que não íamos encontrar grande freguesia depressa nos desenganámos. Foi um corropio de gente, moços e moças, homens e mulheres, alguns até já avós.
Copo a copo ali se despejaram praticamente quatro garrafões de sumo, e se deu destino a 58 sacos adrede preparados para ali entregar e à quase totalidade das outras sandes e bolos…
À medida que se distribuía também se conversava. Alguns afoitavam-se até um pouco mais e soltavam a língua. Relativamente bem parecida, enquanto escolhia alguma roupa para si, a Mdlna atirou:
- Aquela moça é minha filha!
Referia-se a uma que tinha estado junto de nós momentos antes. Nada deixaria adivinhar o parentesco, nem a semelhança nem a atitude. Não perdemos o ensejo de intervir:
- Ai é? E quando tu e ela se decidem a mudar a vossa vida?
- Ah! Isso é mais difícil!
- Pois pode ser mas a mãe deve dar o exemplo aos filhos. Não queres pensar nisso?
- Pois… Por causa dela é que eu estou aqui!
Não procurámos extrair mais nada daquela confissão que encobre um drama profundo e envolve a destruição de uma família. O silêncio pesa-nos na alma como chumbo, a tragédia impõe-nos respeito. As palavras parecem estar a mais perante a crueza de tal realidade. Mesmo assim tentámos fazer a ponte e lá continuámos conversando um pouco na tentativa de a sensibilizar. Mas ficou-nos a sensação de que é mesmo difícil para elas dar tal passo, tomar a decisão…
Já encontrámos namorados a arrastar as namoradas, namoradas a arrastar os namorados, maridos as mulheres, mulheres os maridos, mas filhos a arrastar os pais para a droga… isso ainda não!…
Santo Deus…
Reduzidos a muito pouco nem pensámos sequer em reatar o percurso tradicional pela Câmara, Camões, Batalha, Sé, e fomos directamente à Urgência do H. de Santo António. Ali só dois e deram-nos a notícia de que o resto do pessoal estava no Carregal. Lá fomos. Junto dos Samaritanos acabámos de dar os últimos três copos de sumo e as poucas sandes que ainda restavam.
No grupo estava o F. P. que volta a estar na rua por ter sido “despejado” da residencial! Decidimos dar-lhe boleia para a Baixa e ver se haveria modo de o recolher noutra residencial. Terminámos e fizémos ali a nossa oração numa roda pequenina de seis pessoas - cinco de apoio e um apoiado. A seguir fomos levar aconchego à Isaura, cantar-lhe os parabéns pelos anos que completara no dia 2 (e já lá vão 73!), e ver se havia vaga para o F. P. Havia. E lá ficou também duas noites até ver se se reata o processo de tratamento em que estava envolvido.
Mais tarde, novas diligências procuraram abrir a porta que permita ao F. P. continuar a recuperação e regressar às noites bem dormidas na quentura e aconchego de um quartinho… Mas isso também passa por ele, e sobretudo por ele! Assim tenha e conserve a vontade para tal.
É tempo de férias, outra galáxia nos chama, e ficam para trás os problemas, as mazelas, a miséria, à espera que o tempo de férias acabe para que a vida por cá possa continuar no mesmo ritmo de todos os dias, e que os processos dos F. P. sejam reabertos, que os seus tratamentos se possam reatar, que possam voltar a dormir numa cama fofa, num quarto aconchegado…
Felizmente para eles nem toda a gente se afasta do quotidiano para longe em férias, e alguém fica por perto, atento aos seus problemas, insensível aos seus comportamentos improváveis, e cheio de paciência para poder continuar lembrando o apelo de S. Paulo: “Sede meus imitadores como eu sou de Cristo!”.
Grucoa