Saturday, August 11, 2007

Em Agosto, na rua…

Tempo de férias

 

Não vai ser longo este relato.

Na rua não há férias mas notam-se diferenças nesta época do ano.

É o clima que quase dispensa os cobertores, é a roupa mais leve que é procurada, são novas caras que mudam de poiso, são os turistas que aparecem um pouco misturados na grande feira humana em que se transforma a cidade mesmo à noite.

Permanece neles a fome, a sede, a ausência de aconchego, o abandono, a pouca sorte, a fatalidade em que se transformou a vida de muitos.

Falta-lhes a humanidade, o carinho, a quentura de um lar, a harmonia, o equilíbrio, o amor.

Sobra-lhes o oportunismo da sobrevivência nesta selva humana, o desleixo, e a miséria.

Permanece a frieza e a pobreza do poder de intervenção oficial, a burocratização das situações, a demora das soluções, a impessoalidade dos tratamentos, a numeração dos casos…

Falta o rasgo, rapidez e oportunidade na intervenção, falta um verdadeiro tratamento de emergência… E falta também poder intervir em todas as situações em que a miséria grita escancarada, evidente e em vão…

Sobra burocracia emparedada em processos, papéis e horários, e sobram também técnicos em gabinetes e necessitados nas ruas…

É longa a lista do que há de carências e do que falta em apoios. Não se vislumbra mudança à vista!

Por isso, teimosamente, continuamos e continuaremos a descer aos locais onde estão à nossa espera e à espera de quantos se disponham a dar-lhes a mão, seja por dever ou por devoção.

Na Quarta-feira, dia 8, nem tudo correu como planeáramos. Mas no final tudo acabou por bater certo.

Levávamos muitas sandes (mais de duzentas), alguns bolos, sumo de limão, leite com chocolate, e outros sumos em pacote. E roupa.

Por proposta de duas companheiras que tinham ficado muito sensibilizadas com a fome que encontrámos no Aleixo, decidimos começar por lá. Assim, depois da oração e da leitura da 1ª. Carta de S. Paulo aos Corintios, 11, 1-16, seguimos até ao Aleixo. E, se à chegada até parecia que não íamos encontrar grande freguesia depressa nos desenganámos. Foi um corropio de gente, moços e moças, homens e mulheres, alguns até já avós.

Copo a copo ali se despejaram praticamente quatro garrafões de sumo, e se deu destino a 58 sacos adrede preparados para ali entregar e à quase totalidade das outras sandes e bolos…

À medida que se distribuía também se conversava. Alguns afoitavam-se até um pouco mais e soltavam a língua. Relativamente bem parecida, enquanto escolhia alguma roupa para si, a Mdlna atirou:

- Aquela moça é  minha filha!

Referia-se a uma que tinha estado junto de nós momentos antes. Nada deixaria adivinhar o parentesco, nem a semelhança nem a atitude. Não perdemos o ensejo de intervir:

- Ai é? E quando tu e ela se decidem a mudar a vossa vida?

- Ah! Isso é mais difícil!

- Pois pode ser mas a mãe deve dar o exemplo aos filhos. Não queres pensar nisso?

- Pois… Por causa dela é que eu estou aqui!

Não procurámos extrair mais nada daquela confissão que encobre um drama profundo e envolve a destruição de uma família. O silêncio pesa-nos na alma como chumbo, a tragédia impõe-nos respeito. As palavras parecem estar a mais perante a crueza de tal realidade. Mesmo assim tentámos fazer a ponte e lá continuámos conversando um pouco na tentativa de a sensibilizar. Mas ficou-nos a sensação de que é mesmo difícil para elas dar tal passo, tomar a decisão…

Já encontrámos namorados a arrastar as namoradas, namoradas a arrastar os namorados, maridos as mulheres, mulheres os maridos, mas filhos a arrastar os pais para a droga… isso ainda não!…

Santo Deus… 

Reduzidos a muito pouco nem pensámos sequer em reatar o percurso tradicional pela Câmara, Camões, Batalha, Sé, e fomos directamente à Urgência do H. de Santo António. Ali só dois e deram-nos a notícia de que o resto do pessoal estava no Carregal. Lá fomos. Junto dos Samaritanos acabámos de dar os últimos três copos de sumo e as poucas sandes que ainda restavam.

No grupo estava o F. P. que volta a estar na rua por ter sido “despejado” da residencial! Decidimos dar-lhe boleia para a Baixa e ver se haveria modo de o recolher noutra residencial. Terminámos e fizémos ali a nossa oração numa roda pequenina de seis pessoas - cinco de apoio e um apoiado. A seguir fomos levar aconchego à Isaura, cantar-lhe os parabéns pelos anos que completara no dia 2 (e já lá vão 73!), e ver se havia vaga para o F. P. Havia. E lá ficou também duas noites até ver se se reata o processo de tratamento em que estava envolvido.

Mais tarde, novas diligências procuraram abrir a porta que permita ao F. P. continuar a recuperação e regressar às noites bem dormidas na quentura e aconchego de um quartinho… Mas isso também passa por ele, e sobretudo por ele! Assim tenha e conserve a vontade para tal.

É tempo de férias, outra galáxia nos chama, e ficam para trás os problemas, as mazelas, a miséria, à espera que o tempo de férias acabe para que a vida por cá possa continuar no mesmo ritmo de todos os dias, e que os processos dos F. P. sejam reabertos, que os seus tratamentos se possam reatar, que possam voltar a dormir numa cama fofa, num quarto aconchegado…

Felizmente para eles nem toda a gente se afasta do quotidiano para longe em férias, e alguém fica por perto, atento aos seus problemas, insensível aos seus comportamentos improváveis, e cheio de paciência para poder continuar lembrando o apelo de S. Paulo: “Sede meus imitadores como eu sou de Cristo!”.

Grucoa

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Thursday, August 9, 2007

Sem título

Tu que pensas que não tens nada, que és amigo de ti mesmo.

Tu que és alma ferida e desalojada na escuridão que sentes, abraça a voz de Jesus que te abraça dia e noite.

Agarra esse amor que fervilha, essa chama reluzente das noites em que te visito.

Vejo-te constantemente do outro lado da rua, mãos nos bolsos, cabisbaixo e choro por dentro com Jesus.

Choro por ti, meu irmão.

Choro porque ainda por aqui estás, neste deserto de vida.

Sei que já não tens força para chorar, mas tens o amor de Jesus e o meu, tens amigos, abraços sentidos e inesperados.

O tempo passa, e vejo-te sempre no mesmo lugar, na mesma rua deserta, de velas apagadas que Jesus quer acender no teu coração, sem nada e sem ninguém, sem hora marcada nem dias.

Pensas que perdeste os segundos desta vida de miséria que te beija. Não fiques triste, a tenda de Jesus está sempre aberta para ti, assim como os meus braços que te amparam na escuridão da noite e nas pedras que a vida te atira.

Eu sei que tu te sentes como uma alma despida de amor, que passeia pelas ruas desertas que se abrem de espaços escuros, candeeiros apagados.

Eu sei que sentes o frio no teu corpo gelado, ausente da tua própria essência. Por isso te peço irmão, oferece os teus braços a Jesus que cobrirá o teu corpo marcado pela dor, que curará as feridas que nunca foram curadas pelo tempo.

Ouve o Seu suspiro. Sente-O dentro de ti. Despe a tua alma, e junta-a à de Jesus, abre o teu coração e deixa-o ficar lá para nunca mais sair. Sem Ele a tua vida é um poço sem fundo. Ele é a luz da tua vida, com todo o Seu amor e misericórdia.

Olha para mim, que te visito nesta noite… não vês os meus olhos cobertos de amor por ti? Porque é o amor de Jesus que habita em mim.

Ele procura os teus doces olhos, bebe das tuas lágrimas e tem sede do teu amor. Um amor forte, como uma vela acesa desafiando o vento, numa noite de temporal.

Vem, abraça-me e abraça Jesus. Toca-O no coração com um beijo.

Vem, traz a tua alma, não a deixes por essas ruas desertas, que te abrigam de dor.

Eu sei que não pediste esta vida nem esta vida te escolheu. Mas como folhas secas que caem perdidas nas asas do vento, Jesus embala-te com amor e nunca te abandona.

Tú que já pediste tantas vezes a morte, nesse teu pranto interior que Jesus acolheu e sentiu,  grita, desabafa, fala… porque Jesus ouve sempre, mesmo no teu silêncio interior. Enquanto viver virei sempre regar-te a alma com um beijo meu e todo o meu carinho, para ver esse sorriso que faz sorrir o meu.

Olha para mim, tantas vezes desalojada de mim mesma, às vezes triste e infeliz, mas aqui estou sempre para te ver, para alimentar a tua alma de carinho e de  amor.

E acredita que um dia o rumo da tua vida vai mudar. Eu sei que te vou ver do outro lado da rua, a olhar para cima, onde Jesus está, com um sorriso nos lábios, porque a mágoa desapareceu e a paz renasceu em ti. Aí, eu vou sentir o mesmo que o teu coração sente, vou chorar as mesmas lágrimas e vou sentir o sabor da serenidade que tu vais ter.

Queres o meu coração para acreditares?

Jesus tem as tuas lágrimas marcadas no Seu corpo. Tem o teu sangue gravado na Sua alma. Corre-lhe toda a tua tristeza e desgraça nas veias, como um rio filho da chuva e da terra. Ele é o templo do amor aberto para ti. Ele é o teu luar, tudo o que te faz ser forte e fraco, é o retrato que te acompanha, sem nunca te deixar. Está contigo em todos os lugares e em todos os sentires. Ele é o amor, é o princípio e o fim de ti mesmo. Aonde quer que vás, Ele irá dentro de ti… e um dia… talvez um dia… sentados à mesma mesa Ele te irá dizer o quanto te ama sem distinção, com o mesmo coração e uma única certeza… aonde quer que tu vás levas sempre a Sua alma e o amor que Ele te tem.

Todas as noites, meu querido irmão, eu peço a Jesus:

Abençoa este Teu filho, mostra-lhe sempre o Teu amor e a tua protecção. Dá-lhe a Tua paz e a Tua misericórdia nos momentos de dor. E quando houver incerteza, da-lhe a Tua confiança renovada através da Tua infinita Graça.

Em nome de Jesus. Amen.

Matosinhos, Agosto de 2007 

Maria Rosa

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