Friday, February 23, 2007

Relato da saída de 14 de Fevereiro de 2007

Fevereiro - nova saída

 

Como vem já sendo usual os preparativos para mais uma volta pelas ruas da cidade decorreram com normalidade.

Mas as coisas complicaram-se na tarde do dia 14 porque o trânsito na cidade estava caótico e as deslocações às confeitarias tinham de ser feitas entre as 20,00 e as 20,30 horas, o que se tornou mesmo problemático para não atrasar muito a hora da partida.

Tudo isso, porém, faz parte da tarefa: umas coisas correm sempre como planeamos mas outras pregam-nos partidas para as quais temos de estar preparados.

Juntaram-se às minhas sandes as da amiga Mª. Lrds e as da Ald, o sumo de limão natural, o leite com chocolate, os bolos e salgados das confeitarias de Leça e do Carvalhido, mais alguma roupa e iniciámos a volta pela Boavista. Visita de pobres a pobres.

Antes, porém, fizémos a nossa oração em que nos encomendámos a Deus e em que encomendámos cada um dos amigos que iríamos encontrar.

Mas ainda preparávamos as coisas quando chega o Hldr! Desta vez foi ele que se antecipou e veio ter connosco! E ali mesmo o servimos. Mais à frente, já na Avenida, apareceu o Srgei. Não se lhe vê vontade nenhuma, ou melhor, coragem para iniciar um tratamento, mas é pena, sendo tão jovem!

Em Júlio Dinis aguardavam-nos mais três que nem conhecíamos. Falámos um pouco com eles, servimo-los do que levávamos e seguimos para a Câmara. Aqui já estavam os Samaritanos. Confraternizámos todos com alegria enquanto continuávamos a distribuição. Alguns a quem já se conseguiu alguma forma de apoio por meio da SS aparecem só para conversar. É o caso do Frnnd P. Não arredou pé enquanto ali nos mantivémos. Já no final surgiu a Sndr… Está mais magra, de ar mais triste! É pena não podermos fazer mais alguma coisa por ela!

Em àparte, o Sr. C. dos Samaritanos, sussurou:

- Sabe? O que vocês fazem é de louvar, e deve haver sempre alguém a fazer o mesmo. É que, nós, as Instituições, temos um programa rígido a cumprir e não podemos desviar-nos dele nem um bocadinho, mas vocês têm outra capacidade de agir, podem ir ao encontro deles enquanto nós temos de nos limitar a esperar que eles venham ter connosco!

Fiquei a pensar nesta afirmação. Nunca tinha pensado tanto a sério nisso!

Mas as surpresas acontecem quando menos se espera e esta noite reservou-nos algumas! Foi já no final quando nos preparávamos para avançar para outro local da cidade que, quando nos  despediamos, uma voluntária dos Samaritanos descobriu a D. Mª. Lrds, sua antiga colega de profissão… À surpresa seguiram-se os abraços e uma curta mas saudosa e alegre troca de informações.

São, na verdade, curiosos os caminhos daqueles que esperam no Senhor!…

Antes que se fizesse mais tarde fomos fazer uma curta visita à Isaurinha. Lá estava ela enrolada nos cobertores, quentinha. Quando nos viu logo disparou:

- Há muito que não vinham… Já tinha saudades!

Pois, também nós, além do dever, temos saudades de conversar e de sentir que lhe servimos de algum apoio.

Quem tem a quem precisa sem olhar a custos.

Depois de  uma curta conversa e de nos certificarmos  que tinha tomado a medicação que os Médicos do Mundo lhe receitaram para ajudar na desinflamação do seu pé, e que tudo ficava bem,  deixámos-lhe alguns alimentos e despedimo-nos.

Resolvemos passar no Viaduto de Gonçalo Cristóvão: uma carrinha distribuía coisas. Seriam os Samaritanos? Mas eles não costumam parar lá e já era tarde para ainda por ali andarem… As caras não nos diziam nada. Mas… de repente, sai, cristalina, uma voz que interpela:

- Por aqui?…

Volto  a cara e deparo com uma amiga de peregrinação a Fátima - a pé - e que não via desde 2003!

- Mas… - tartamudeei - também ajuda as pessoas da rua? Como é que nunca nos encontrámos?

- Ando com o sr. Pe. J. P. e com com os jovens da Paróquia Experiemntal de Nossa Senhora da Boavista, no Foco.

- Mas pensei que tudo tivese acabado com a saída do sr. Pe. Lreiro…

- Não acabou, não! Continua agora com este Sr. Pe. que o veio substituir.

Trocámos informações, recordámos vivências passadas, deixámos recomendações para companheiros e familiares conhecidos e tivémos de continuar cada qual na sua missão.

Mais uma vez fiquei a pensar que, quem tem Deus consigo se encontra sempre onde Ele precisa de acudir a alguém. 

Passámos na Batalha. No local de paragem só estava o carro da Polícia. Deles nem rasto. Mas, tendo parado, ainda apareceram três ou quatro afoitos cuja fome de tudo era superior a qualquer receio. Conversa, sumo a copo, sandes e pastéis, consumidos ali ou compondo os sacos, de tudo  houve como é costume em todos os pontos em que paramos.

Dali fomos para a Urgência.

Já lá tinham estado os Samaritanos e, por isso, poucos nos aguardavam. Um deles, porém, perguntou se já tínhamos passado em…. Não, não paramos lá. Perante a negativa indicou-nos um companheiro que estava a dormir num recanto. Insistiu para que passássemos por lá. Prometemos passar, e assim fizémos. E lá o descortinámos protegido por cartões. Aproximei-me, chamei baixinho quase que com receio de o acordar, mas nada! Achei que era preferível respeitar o seu sono e, quando me preparava para lhe ir arranjar um saco com alimentos para lhe deixar uma companheira de volta disse-me:

-Olhe que ele acabou de levantar a cabeça!

- Bem, se levantou a cabeça é porque está acordado…

Regressámos e chamámos novamente, baixinho. Foi então que se soergueu para inquirir quem éramos e o que fazíamos ali. Lá lhe explicámos e contou então a sua história:

Era trabalhador de uma fábrica no Sul, que faliu; encontrou-se, assim, no desemprego de um momento para o outro. A família continua a precisar do seu contributo para o seu sustento pois que 2 filhos frequentam o Ensino Superior e os outros dois o Secundário. Decidiu reorientar a sua vida e procurar trabalho, e disse à família que iria emigrar para angariar o seu sustento fora do País. Convencido que o poderia fazer cá, rumou ao Norte, onde se sente mais à vontade para aceitar seja o que for, sem que a família sinta vergonha da sua situação de pobreza.

- Eles nem sonham o que eu estou a passar!… Pensam que estou no estrangeiro a ganhar a vida!…

Pedimos desculpa por tê-lo acordado, ao que retorquiu:

- Não faz mal! Eu até estou necessitado de falar com alguém. Faz-me bem…

E contou que tinha percorrido o Porto todo a pé à procura de trabalho. Bateu a muitas portas, parou em todas as obras que viu até que foi encontrar trabalho numa construção no Padrão da Légua. Começou apenas há dias e, por isso, não tem dinheiro para nada e desloca- -se a pé dali para o local de trabalho.

- Mas não era melhor ficar por lá para estar perto do trabalho? Isso não facilitava?

- Pois… mas aqui é onde vêm as “carrinhas” e sempre tenho alguma coisa de comer!

- Ah!… Então é por isso que vem dormir aqui na rua?

Assentiu que sim. Percebemos.

- E amanhã como é que vai para o trabalho? Também vai a pé?

- Para amanhã tenho uma viagem de ida. Depois lá se verá!

- E não lhe poderiam adiantar algum dinheiro na obra para poder governar a sua vida?

- Já falei com o sr. Engenheiro mas ele disse-me que já o fez de outras vezes mas que, depois de terem recebido deixavam de aparecer ao trabalho e, por isso, deixou de pagar com antecipação.

Embatucados, nem sabíamos que dizer. A situação surgia com toda a crueza da triste realidade. Que fazer para ajudá-lo? Um de nós puxou de uma senha de 10 viagens dos STCP para lhe entregar mas, triste ironia!… Tinha perdido já a validade! Então uma amiga presente vasculhou nos bolsos e encontrou uma nota de 20 Euros que lhe entregou para ajudar na compra das próximas viagens.

- Uma vez que tem de se levantar cedo amanhã é melhor deixá-lo descansar e dormir.

- Não, não - insistiu - eu estou bem e até preciso de conversar. Está-me a fazer bem este bocadinho.

- Olhe, não desanime e vai ver que tudo se vai resolver… O que precisa é ter fé!

- Fé… é o que me vai faltando!… - E fez um meneio com a cabeça como quem diz: de que me tem servido?

- Mas continue a ter! Não a perca porque se hoje viemos aqui é porque alguém nos mandou.

A conversa continuou em torno desse tema até que decidimos rematar:

- Temos de ter fé em Deus. Ele tudo ordena e ouve as nossas orações. Reze e peça-lhe todos os dias o que acha que precisa e vai ver que Ele o ouve.

- Rezar… nem sei se ainda sei rezar!

- Sim, se já se esqueceu daquelas orações que aprendeu em pequeno reze com o coração, diga-Lhe o que sente e o que precisa para endireitar a sua vida e a dos seus. Olhe: vamos começar agora mesmo? Importa-se de rezar a Nossa Senhora uma Avé Maria connosco pelas suas intenções e pedindo-lhe que o ajude a orientar a sua vida?

Não só assentiu como se sentou imediatamente “na cama” como que a procurar melhor compostura, e rezou, compenetrado e comovido. Uma lágrima começou a assomar na sua face e nós fizémos esforço para segurar as nossas. Respirou fundo e disse:

- Não sabem o bem que acabam de me fazer!… Estava a precisar tanto disto!…

Prometemos voltar. Despedimo-nos. Eram 01h30 da manhã.

Respirámos todos bem fundo. Sentiamos que aquela noite valeu pelo final. Final dramático mas que justifica plenamente a nossa tentativa de ajuda fraterna. Sentíamos também que tínhamos lançado ali uma semente boa.

E compreendemos o valor da recomendação profética que ainda horas antes  o Sr. C nos fizera de irmos ao seu encontro já que eles teriam de se limitar a esperar que eles os procurassem!

Temos de fazer alguma coisa pelo Crls. Sabemos onde trabalha, sabemos onde dorme, e sabemos do que precisa para sobreviver nestes primeiros tempos em que não tem meios.

Vamos ajudar o Crls?

Cheios de uma grande paz regressámos a nossas casas. Mas não era paz alheada do sofrimento dos outros. Era uma paz fruto do querer fazer por cada um deles o que puder ser feito e estiver ao nosso alcance. Era a satisfação de termos cumprido parte da nossa parte. Era um querer continuar. Adiante, Amigos!

Até breve!

Grucoa

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Wednesday, February 7, 2007

Em Fevereiro, com as pessoas sem abrigo.

Novamente na rua

Dia 14 de Fevereiro voltamos a sair ao encontro de quem precisa e nos espera. Uma saída por mês pode parecer pouco. E é. Mas é assim para que possamos também assumir os outros nossos compromissos e deveres sem que deste impedimento mensal resultem prejuízos na organização da vida de cada um. E, além disso, para quem puder dispôr de mais tempo, sempre fica a possibilidade de acompanhar o grupo da Teresa na última quarta-feira de cada mês, ou outro em que participem amigos nossos, que o bem-fazer nunca deve  ser limitado.

Neste mês devemos contar com mais voluntários e com mais disponibilidade de meios: há a hipótese de se juntar a nós um grupinho nascente de Nª. Srª. da Conceição, e contamos com a ajuda de mais uma confeitaria de Leça. É Deus a enviar reforços e coisas!

A saída será da Maiorca à hora habitual.

Cada um deve trazer o mesmo do costume e a sua melhor boa vontade e empenho pessoal.

Sabemos que, sozinhos, não vamos resolver os problemas com que deparamos mas também sabemos que, juntos, poderemos fazer algo para melhorar a situação das pessoas carecidas que encontrarmos. Tudo por Deus e com Deus, pelas mãos de Nossa Senhora.

Avé Maria!

Grucoa

 

 

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