Tuesday, November 28, 2006

A ISRINH - Mais…

AS PEDRAS…

A resposta à situação da nossa amiga Isrinh tem sido muito boa. Juntaram-se algumas boas-vontades que têm mantido o quarto limpinho, que vão ajudá-la a tomar banho e levar-lhe roupa lavada.

São tarefas aparentemente simples mas que já constituem para a Isrinh um pequeno problema: a idade não vai ajudando e os muitos anos de rua já deixaram para trás há muito tempo pequenos e para nós simples gestos que têm de ser agora pacientemente recuperados.

Porque já tem termo de comparação acha que o quarto é um luxo que não merece… e lembra-se dos ratos que deambulavam livremente no antigo tugúrio onde dormia, da escuridão do lugar, do desaconchego que suportava.

Os seus temores e hábitos estão sempre presentes no seu pensamento. É frequente ouvi-la dizer:

- Ai!… Eu não preciso de tanta luz! Chega-me a do quarto de banho!

- Ó Pedrinho, deixe a porta só encostada que eu não gosto de estar presa!

- Ai, isto é bom demais para mim… eu até nem precisava de tanto! Servia-me um quartinho… no outro lado havia ratos, não me deixavam em paz, arrombavam a porta, roubavam-me o que me davam…

- Ó menina! Não me deixem voltar para as pedras, não? Ai, eu não quero voltar para as pedras!…

Este último pedido é o que faz com mais insistência.

Ora o quartinho em que se encontra alojada é do mais simples que há: em prédio de construção antiga, tem uma mesinha de cabeceira, uma mesa e um guarda-fatos, todos com muito uso; no q.b., só com chuveiro, falta um banco e tampas na bacia e no bidé. Parte da limpeza é assegurada por alguns voluntários. É isto que é um luxo para a Isrinh!…

Mas, o que nos deixa mais pensativos é o seu insistente pedido, que esconde um medo atroz, de não a deixar voltar para as pedras!

Até há pouco isso nem era problema visível porque constituía a realidade a que não podia fugir. Sem alternativa, as pedras, a rua em que dormia, como solução única, era o melhor a que podia aspirar! Mas agora, porque viu entreabrir uma nesga de solução mais humana, vê e estabelece a devida comparação, e pede que não a deixem voltar para as pedras!

- Ai, isto é caro! Mas, ó menina, eu não tenho dinheiro para pagar isto! Eu não posso pagar isto! Não sei quem paga, mas, por amor de Deus, não quero voltar para as pedras!…

Este grito da Isrinh pode ser o grito de quantos andam por aí sem alternativa para poderem dizer o mesmo que ela. Se a todos fosse possível dormir num quarto, terem uma cama, na perspectiva de terem de os deixar gritariam da mesma maneira que não quereriam voltar para as pedras! 

ATÉ QUANDO NÓS E A SOCIEDADE PERMITIREMOS QUE AS PEDRAS SEJAM O QUARTO, A CAMA E O COLCHÃO DE TANTOS IRMÃOS QUE NÃO TÊM MAIS QUE A RUA POR TECTO?

Recordemos o que escreveu S.Paulo na Carta aos Efésios, 13, 1 e 2:

“Continuai a viver no amor fraterno. Não esqueçais a hospitalidade; alguns a praticaram, e, sem o saberem, acolheram anjos.”

Grucoa

 

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Saturday, November 18, 2006

Isrinha

SITUAÇÃO DA ISRINH

APELO

A Isrinh estava a dormir nas arcadas do Srº. António. Ontem ainda passou ali a noite. Porém, hoje, já está num quartinho quentinho e confortável de uma residencial. O custo é elevado para “residência permanente” pois que os €15,00 diários atingem a bonita soma de €450,00 ao fim do mês…

Ora isso é quase que o custo de um apartamento!

Para já encontram-se pagos 9 dias de alojamento, do que se encarregaram pessoas amigas e o grupo da Trsa.

É preciso custear a despesa enquanto se não encontra outra solução, e é urgente procurar alternativa.

Daí o nosso apelo de hoje: quem quer quotizar-se para ajudar a suportar a despesa?

Os eventuais interessados poderão responder e dar os seus contactos utilizando o espaço reservado a comentários, ou contactar a Trsa. indicando quanto e por que modo querem dar a sua ajuda.

Aguarda-se igualmente ajuda na procura de solução mais adequada e realista.

Com o contributo de todos a Isrinh., com os seus 79 anos já feitos, poderá ter um fim de velhice mais digno e mais humano.

Em nome da decência que deve ser apanágio das pessoas de bem, e do melhor-estar da Isrinh., o nosso muito obrigado.

Grucoa

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Friday, November 17, 2006

Novembro de 2006

 

As Mensagens da Rua

 

Estamos em pleno Outono. Caem fortes as chuvas, o vento sopra incerto mas agreste, e o pregão de quentes e boas contrasta com o desamparo em que vivem os que carecem de um mínimo de abrigo.

Se a “casa” habitual não lhes tem sido muito madrasta é porque o tempo os tem poupado. Mas aí está ele com toda a sua aspereza e crueldade a dificultar a de si já muito difícil e débil existência.

No cenário em que nos temos encontrado mergulhados nestes dias compreende-se que até nem nos seja fácil trocarmos o nosso aconchego pela hipótese de nos sujeitarmos a uma inesperada molha ou à inclemência do vento ou da descida gradual da temperatura. Mas Deus nos quer na rua, Deus nos guia e ampara e, por isso, ainda que em menor número, resistimos à tentação do conforto e da quentura do lar, e trocamo-los pela experiência aparentemente incómoda mas gratificante de sermos sem-abrigo e nos sentirmos mais irmãos dos desamparados por algumas horas e de, em consequência,  nos darmos conta de que regressamos a casa com o coração muito mais quente e cheio da ternura que nos deixaram aqueles que não estão habituados a recebê-la dos seus semelhantes.

Decorreram os preparativos sob a promessa de abundância: Uma confeitaria de Leça juntou aos seus bolos bastante pão, o que facilitou as coisas e dispensou a sua compra. Assim, as mãos caridosas que habitualmente preparam 50 sandes aumentaram o seu número em função da quantidade de pão de que dispunham. A estas mais de cem somaram-se as 50 da Ald, os bolos, salgados e pastéis da outra pastelaria do Porto que não é só nobre no nome, os 20 litros de sumo de laranja, e cerca de cem pacotes de leite com chocolate.

Havia sandes para todos os gostos e feitios: de presunto, de marmelada, de queijo, de fiambre… Pastéis normais e também miniatura, que são sempre muito desejados.

Quase que à última hora chegaram-nos também casacos, blusões, camisolas, meias, algum calçado, e também roupa de senhora.

Para tudo isto apenas duas pessoas!…

Como iríamos gerir a distribuição?

Confiámos em Deus. Ele que assim dispôs também nos ajudaria…

A leitura sorteada deu-nos a resposta em

Actos, 5, 17-21: “Mas o Sumo Sacerdote com todo o seu partido, isto é, a seita dos Saduceus, ficaram enciumados. Prenderam os Apóstolos e os mandaram para a cadeia pública. Mas durante a noite, o anjo do Senhor abriu as portas da cadeia e os conduziu para fora, dizendo: Ide, apresentai-   -vos no Templo e ensinai ao povo toda a doutrina desta nova vida. Tendo ouvido isto, eles se dirigiram, de madrugada, ao Templo e começaram a ensinar.”

Perante a prisão que representavam aquelas dificuldades, o Senhor nos mostrava que o Seu poder não tem limites e que Ele nos poderia também encontrar solução fácil. E nos ordenava a ida à rua, àquele templo em que Ele está vivo na pessoa dos desprotegidos, dos desamparados, dos espezinhados, dos miseráveis, para lhes levar no fim do dia e pela noite dentro até de madrugada o Seu amor, a doutrina da nova vida!

Assim animados - GRANDE É O SENHOR!… - na hora da partida, na oração inicial, colocámo-nos nas Suas mãos, e a Ele oferecemos a noite e aqueles que iríamos encontrar, os seus problemas e males, as suas carências, as suas misérias, as suas necessidades, e nós próprios como instrumentos Seus.

Começámos pela Boavista onde a pressa do costume não permite mais do que meia dúzia de palavras. Eram três mas faltavam outros que ali costumam recolher uns trocos no estacionamento de viaturas.

Nada em Júlio Dinis àquela hora. Como se aproximavam as 22,00 horas decidimos seguir logo para a Câmara. À dúzia que já esperava depressa se juntaram outros, outros e outros… Quando os Samaritanos chegaram já muitos tinham seguido ao seu destino. Foi a festa do costume. Partilhámos os bolos com eles e deliciámo-nos com as fatias de pão-de-ló que a Ald carinhosamente tinha confeccionado. Parabéns Ald, pode continuar! Não tive ocasião de provar a sopa que a Fatnh oferecia com carinho porque a chuva que nos apanhou na Batalha não facilitou as coisas. Paciência! Para a próxima há mais, não é?

Muitos nos conhecem já mas é curioso notar a chegada constante de gente nova por ali. E bastante jovem.

Lá fomos servindo toda a gente que aparecia pedindo paciência e compreensão a cada novo que esticava o pescoço como que reclamando de imediato o seu quinhão. Mas, quando se apercebiam que o acto não era mecânico e que, à medida que chegavam é que as porções destinadas a cada um eram preparadas, muitas vezes a contento do servido - ponha antes aquele bolo, aquela sande, aquele não que não vou em doces.., etc. - colocavam-se pacientemente no seu lugar e aguardavam a sua vez. Como atitude de boa recepção, logo que chegavam dava-lhes em mão um salgadinho para mordiscarem ou um bolo extra, atitude que sentimos cair muito bem. Ao mesmo tempo, e sempre que calhava, pedia para segurarem o seu próprio saquinho enquanto ia preparando o recheio.

À solicitação de sumo respondíamos que aguardassem o final da distribuição dos alimentos sólidos para facilitar as coisas, o que acataram docilmente. E, à medida que iam mordiscando as sandes e comendo os diversos bolos também o sumo desaparecia! A uma ou outra solicitação até dávamos a garrafa com o que nela restava…

E assim aconteceu nas grandes aglomerações da Câmara e da Batalha. Aqui a chuva grossa e fria abateu-se com ferocidade sobre nós mas continuámos impávidos a distribuição. Com a força até já pingava nos sacos que se encontravam na mala do carro, que se mantinha aberta. E, quando parecia que tudo estava já servido aparecia um ou outro retardatário a solicitar a nossa ajuda. Chegou a todos, graças a Deus!

Estávamos a arrancar dali quando outra carrinha pára defronte de nós. Jovens tentavam encontrar clientes, mas a debandada que a chuva provocara deixara o local quase deserto! Era o simpático grupo da escola Paula Fracinetti que já não via há meses! Desejámos-lhe as maiores felicidades e continuámos.

Ao dirigirmo-nos ao Carregal deparámos com dois arrumadores na Avª. de Ceuta. Com certo espanto e agradecimento receberam também o seu quinhão.

Passámos à Urgência onde atendemos apenas duas pessoas e, seguidamente, fomos às arcadas descobrir a Isrinha.

A Isrinha estava enrolada em cobertores debaixo da arcada, com a cabeça encostada ao pilar, mas quentinha. Mantinha ao lado dois copos de café, um ainda cheio. Conversámos sobre os motivos que a levaram a deixar o seu quartinho, asseado e cuidado carinhosamente todas as semanas pelas senhoras do grupo da Trsa, mas falou muito pouco. Tem esperança que lhe consigamos alojamento mas em local “onde possa fazer a minha vida”. Falámos-lhe com o carinho e respeito que merecem os seus oitenta anos, e depositámos na sua fronte um carinhoso beijo, com a promessa de que iríamos tentar encontrar-lhe um abrigo mais confortável.
 
No Carregal entregámos alimentos ao Sr. Antno, que saltou da cama meio espavorido quando ouviu chamar, e o restante ao Alfrd que acabara de chegar. Entre outras coisas informou-nos que dentro de pouco tempo, um ou dois meses, iria para casa do pai em Contumil e que, quando isso acontecer, aquela casa fecha.
 
Permanece em aberto a busca de uma solução para o problema da Isrinh. Será que a D. Mnla, em Álvares Cabral a poderia receber? Seria uma óptima hipótese… ainda que tenha de se assumir a despesa com o alojamento se a Segurança Social o não fizer.
 
A nossa oração final foi uma oração cheia… Cheia de amor, de gratidão também porque consideramos uma graça de Deus o podermos responder ao Seu apelo de ajuda àqueles que precisam de algo.
Regressámos a nossas casas com o coração cheio, satisfeitos por termos correspondido ao Seu apelo e por sentirmos ter sido esta uma das mais belas das nossas noites, cujo resultado indicia que é nesta linha que devemos continuar.
 
Grucoa 
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Tuesday, November 14, 2006

Saída em Novembro

Voltamos à Rua!…

 

No dia 15 - que já é na próxima Quarta-feira -compareceremos  no local e hora habituais para uma nova volta pela cidade ao encontro dos nossos amigos que nos esperam.

Há tristes novidades pois que a avozinha I….. e o Z.L foram “escorraçados” do Carregal e não têm “casa” onde estabelecer o seu “domicílio”!… Vamos ao encontro dela e procuraremos saber onde para o Z.L.

 

Tragam o costume e toda a boa-vontade que puderem…

 

Até breve, com um abraço!

 

Grucoa

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