As Mensagens da Rua
Estamos em pleno Outono. Caem fortes as chuvas, o vento sopra incerto mas agreste, e o pregão de quentes e boas contrasta com o desamparo em que vivem os que carecem de um mínimo de abrigo.
Se a “casa” habitual não lhes tem sido muito madrasta é porque o tempo os tem poupado. Mas aí está ele com toda a sua aspereza e crueldade a dificultar a de si já muito difícil e débil existência.
No cenário em que nos temos encontrado mergulhados nestes dias compreende-se que até nem nos seja fácil trocarmos o nosso aconchego pela hipótese de nos sujeitarmos a uma inesperada molha ou à inclemência do vento ou da descida gradual da temperatura. Mas Deus nos quer na rua, Deus nos guia e ampara e, por isso, ainda que em menor número, resistimos à tentação do conforto e da quentura do lar, e trocamo-los pela experiência aparentemente incómoda mas gratificante de sermos sem-abrigo e nos sentirmos mais irmãos dos desamparados por algumas horas e de, em consequência, nos darmos conta de que regressamos a casa com o coração muito mais quente e cheio da ternura que nos deixaram aqueles que não estão habituados a recebê-la dos seus semelhantes.
Decorreram os preparativos sob a promessa de abundância: Uma confeitaria de Leça juntou aos seus bolos bastante pão, o que facilitou as coisas e dispensou a sua compra. Assim, as mãos caridosas que habitualmente preparam 50 sandes aumentaram o seu número em função da quantidade de pão de que dispunham. A estas mais de cem somaram-se as 50 da Ald, os bolos, salgados e pastéis da outra pastelaria do Porto que não é só nobre no nome, os 20 litros de sumo de laranja, e cerca de cem pacotes de leite com chocolate.
Havia sandes para todos os gostos e feitios: de presunto, de marmelada, de queijo, de fiambre… Pastéis normais e também miniatura, que são sempre muito desejados.
Quase que à última hora chegaram-nos também casacos, blusões, camisolas, meias, algum calçado, e também roupa de senhora.
Para tudo isto apenas duas pessoas!…
Como iríamos gerir a distribuição?
Confiámos em Deus. Ele que assim dispôs também nos ajudaria…
A leitura sorteada deu-nos a resposta em
Actos, 5, 17-21: “Mas o Sumo Sacerdote com todo o seu partido, isto é, a seita dos Saduceus, ficaram enciumados. Prenderam os Apóstolos e os mandaram para a cadeia pública. Mas durante a noite, o anjo do Senhor abriu as portas da cadeia e os conduziu para fora, dizendo: Ide, apresentai- -vos no Templo e ensinai ao povo toda a doutrina desta nova vida. Tendo ouvido isto, eles se dirigiram, de madrugada, ao Templo e começaram a ensinar.”
Perante a prisão que representavam aquelas dificuldades, o Senhor nos mostrava que o Seu poder não tem limites e que Ele nos poderia também encontrar solução fácil. E nos ordenava a ida à rua, àquele templo em que Ele está vivo na pessoa dos desprotegidos, dos desamparados, dos espezinhados, dos miseráveis, para lhes levar no fim do dia e pela noite dentro até de madrugada o Seu amor, a doutrina da nova vida!
Assim animados - GRANDE É O SENHOR!… - na hora da partida, na oração inicial, colocámo-nos nas Suas mãos, e a Ele oferecemos a noite e aqueles que iríamos encontrar, os seus problemas e males, as suas carências, as suas misérias, as suas necessidades, e nós próprios como instrumentos Seus.
Começámos pela Boavista onde a pressa do costume não permite mais do que meia dúzia de palavras. Eram três mas faltavam outros que ali costumam recolher uns trocos no estacionamento de viaturas.
Nada em Júlio Dinis àquela hora. Como se aproximavam as 22,00 horas decidimos seguir logo para a Câmara. À dúzia que já esperava depressa se juntaram outros, outros e outros… Quando os Samaritanos chegaram já muitos tinham seguido ao seu destino. Foi a festa do costume. Partilhámos os bolos com eles e deliciámo-nos com as fatias de pão-de-ló que a Ald carinhosamente tinha confeccionado. Parabéns Ald, pode continuar! Não tive ocasião de provar a sopa que a Fatnh oferecia com carinho porque a chuva que nos apanhou na Batalha não facilitou as coisas. Paciência! Para a próxima há mais, não é?
Muitos nos conhecem já mas é curioso notar a chegada constante de gente nova por ali. E bastante jovem.
Lá fomos servindo toda a gente que aparecia pedindo paciência e compreensão a cada novo que esticava o pescoço como que reclamando de imediato o seu quinhão. Mas, quando se apercebiam que o acto não era mecânico e que, à medida que chegavam é que as porções destinadas a cada um eram preparadas, muitas vezes a contento do servido - ponha antes aquele bolo, aquela sande, aquele não que não vou em doces.., etc. - colocavam-se pacientemente no seu lugar e aguardavam a sua vez. Como atitude de boa recepção, logo que chegavam dava-lhes em mão um salgadinho para mordiscarem ou um bolo extra, atitude que sentimos cair muito bem. Ao mesmo tempo, e sempre que calhava, pedia para segurarem o seu próprio saquinho enquanto ia preparando o recheio.
À solicitação de sumo respondíamos que aguardassem o final da distribuição dos alimentos sólidos para facilitar as coisas, o que acataram docilmente. E, à medida que iam mordiscando as sandes e comendo os diversos bolos também o sumo desaparecia! A uma ou outra solicitação até dávamos a garrafa com o que nela restava…
E assim aconteceu nas grandes aglomerações da Câmara e da Batalha. Aqui a chuva grossa e fria abateu-se com ferocidade sobre nós mas continuámos impávidos a distribuição. Com a força até já pingava nos sacos que se encontravam na mala do carro, que se mantinha aberta. E, quando parecia que tudo estava já servido aparecia um ou outro retardatário a solicitar a nossa ajuda. Chegou a todos, graças a Deus!
Estávamos a arrancar dali quando outra carrinha pára defronte de nós. Jovens tentavam encontrar clientes, mas a debandada que a chuva provocara deixara o local quase deserto! Era o simpático grupo da escola Paula Fracinetti que já não via há meses! Desejámos-lhe as maiores felicidades e continuámos.
Ao dirigirmo-nos ao Carregal deparámos com dois arrumadores na Avª. de Ceuta. Com certo espanto e agradecimento receberam também o seu quinhão.
Passámos à Urgência onde atendemos apenas duas pessoas e, seguidamente, fomos às arcadas descobrir a Isrinha.
A Isrinha estava enrolada em cobertores debaixo da arcada, com a cabeça encostada ao pilar, mas quentinha. Mantinha ao lado dois copos de café, um ainda cheio. Conversámos sobre os motivos que a levaram a deixar o seu quartinho, asseado e cuidado carinhosamente todas as semanas pelas senhoras do grupo da Trsa, mas falou muito pouco. Tem esperança que lhe consigamos alojamento mas em local “onde possa fazer a minha vida”. Falámos-lhe com o carinho e respeito que merecem os seus oitenta anos, e depositámos na sua fronte um carinhoso beijo, com a promessa de que iríamos tentar encontrar-lhe um abrigo mais confortável.
No Carregal entregámos alimentos ao Sr. Antno, que saltou da cama meio espavorido quando ouviu chamar, e o restante ao Alfrd que acabara de chegar. Entre outras coisas informou-nos que dentro de pouco tempo, um ou dois meses, iria para casa do pai em Contumil e que, quando isso acontecer, aquela casa fecha.
Permanece em aberto a busca de uma solução para o problema da Isrinh. Será que a D. Mnla, em Álvares Cabral a poderia receber? Seria uma óptima hipótese… ainda que tenha de se assumir a despesa com o alojamento se a Segurança Social o não fizer.
A nossa oração final foi uma oração cheia… Cheia de amor, de gratidão também porque consideramos uma graça de Deus o podermos responder ao Seu apelo de ajuda àqueles que precisam de algo.
Regressámos a nossas casas com o coração cheio, satisfeitos por termos correspondido ao Seu apelo e por sentirmos ter sido esta uma das mais belas das nossas noites, cujo resultado indicia que é nesta linha que devemos continuar.
Grucoa