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O Franjas Sociais mudou de alojador e encontra-se disponível no seguinte endereço electrónico:
http://franjassociais.blogspot.com

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No alvor da Primavera
O dia 10 chegou depressa, tão depressa que quase nem dávamos por ele.
O Fernando continua impedido, a Rosinha tem de cuidar do doente que tem em casa, a Elvira está gripada, a Esmeralda não pôde vir. Mas nem por isso deixamos de nos por ao caminho. Outros vão e vão sozinhos de que é exemplo o sr. M. Rocha que todos os dias aparece no Carregal com dois panelões de sopa (…”- Quantos litros?- perguntei-lhe; avaliei para aí uns 40 em cada panela!…”).
Desta vez éramos seis com o Luís, a Mª. Lurdes, a Sofia, a Alda e a Augusta, e tocou à amiga Mª. de Lurdes preparar 4 garrafões de sumo por falta de limões deste lado. Saíu-lhe a sorte grande de trabalho…
Reunidas as ofertas das confeitarias, as sandes, a fruta - maçãs e bananas - e o sumo, tudo arrumadinho em dois carros, juntámos alguma roupa (pouca) e dispusémo-nos a partir. Na nossa oração colocámo nas mãos de Deus todos aqueles que iríamos encontrar no nosso percurso, e colocámo-nos também nós para que pudéssemos ser Seus Bons Mensageiros, com Maria por companhia, medianeira, Rainha.
A Sofia quis abrir a Palavra contida no Novo Testamento. É a Palavra da Vida, é a Palavra Viva. S. João 17,1: “Oração Sacerdotal de Jesus”. E foi lendo… As palavras iam soando aos nossos ouvidos como conselhos para esta nossa caminhada, e como certezas de que Deus nos enviava na continuação da exortação que noutros tempos fizera: “A Paz seja convosco! Assim como O Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós.” Jo. 20, 21.
“… guarda-os em Ti para serem um só, como Nós somos Um”;
“Entreguei-lhes a Tua Palavra…”
“Assim como Tu Me enviaste ao mundo, também Eu os enviei ao mundo…”
“…Não rogo só por eles, mas também por aqueles que hão-de crer em Mim, por meio da sua palavra…”.
E como outrora a Palavra de Deus se fizera carne, Deus queria que a Sua Palavra se fizesse Amor, amor desinteressado, sem aguardar paga de qualquer natureza que não seja a satisfação do dever de cristão cumprido. E foi com esse intuito que começámos, com o propósito de lhes levar essencialmente o Amor de Deus. Mas Deus, que nos conhece melhor do que nós mesmos, também nos faz as Suas partiditas! E fez! Quando pensávamos (pelo menos eu!) que levávamos alguma coisa que os nossos amigos da rua não tinham e de que precisavam, Deus mostrou-nos que, pelo menos alguns deles, têm muito para dar e que também nós temos ainda muito que aprender deles…
Porque digo isto? Por me lembrar do António dos Santos, que se diz cigano, e que, ao invocar o nome de Deus bateu no peito com a mão cheia e apontou ao céu iniciando uma profissão de Fé digna do maior crente! E ao acompanhamento do Filipe, outro cigano seu amigo ali ao lado. E então o Zé Manuel, em pleno Aleixo, olhos luzidios tão límpidos como os de um babtizado que acabou de sair da Pia onde lava o Espírito Santo, emoldurados por uma barba e cabelo oleosos e corridos sobre o rosto? Do seu peito pendiam três crucifixos de um porta-chaves…
- Encontrei-os no lixo! Este, do meio, é do que gosto mais. Mas são lindos, não são?
Que lição!… Enquanto uns, findo o uso a que os destinavam, e porque os consideram sem préstimo os deitam fora como qualquer traste sem serventia, outros vêem continuamente neles o que realmente representam e os estimam encontrando sempre para eles, respeitosamente, um uso adequado. E que dizer quando este exemplo nos chega… do Aleixo?!…
“Não rogo só por eles, mas por todos aqueles que hão-de crer em Mim… para que sejam um só…”.
Uma vez mais, também o Paulo nos obrigou a redobrado esforço na tentativa de desemaranhar a teia em que continua preso mais por egoísmo e desinteresse alheio do que por culpa sua. É compreensível a revolta que sente, e, escondido sob a aparência da dureza que aparenta adivinha-se um coração de oiro. Rezámos com o Paulo outra Avé-Maria, que acompanhou ainda que continue a insistir que não sabe…
Resignado à sua limitação estava o “cigano” que, ao ver dois moços em fato de treino a correr se limitou a dizer:
-Também já fui assim!… - E, conformado, apontava para a canadiana que é agora sua companheira permanente.
- Algum acidente?- perguntei.
- Veja aqui a minha perna. - E fez-me apalpar de um e outro lado de onde se adivinhavam ferros…
Entretanto chegam duas moças, com bastante bom aspecto, sendo uma muito jovem, bonita, e que disse já ser mãe.
- Mãe de quanto tempo?
- 15 meses.
- Quantos anos tens? - perguntou o António “cigano” querendo acompanhar a conversa.
- 18!
- Estudas? - Perguntei.
- Não! Foi por causa do meu filho que tive de deixar…
- Mas não podes ficar assim… Que ano fizeste?
- Fiz o nono. Agora estou na Câmara para continuar.
- E onde moras? Com os pais?
- Não. Com esta minha amiga, num quartinho.
Dezoito aninhos, um filho de 15 meses, a morar em casa alheia, ocupando um quartinho de uma amiga…
O António “cigano” estava comovido e duas lágrimas ameaçavam saltar. O António, homem da rua, a trajar o vestuário com que dorme, sem casa nem família à distância da sua necessidade, comove-se perante a necessidade alheia e deixa sair:
- “Miséria!”…
Dou-lhe uma palmada amiga nas costas como que para o acordar daquela meditação. É que não basta ter pena, é preciso agir. E a conversa continuou com alguns conselhos de como fazer e a quem se dirigir para tentar obter um quartinho da Segurança Social.
No Carregal outro exemplo de coragem, de dedicação, de amor. Isto é mais, muito mais do que simples altruísmo! No seu posto já habitual, o Sr. M. Rocha, de colher de sopa na mão, atendia os últimos. Desta vez ainda tinha uma panela meio cheia.
- Vou para aí que depressa distribuo a sopa toda!
Em dia de futebol foi este o seu desporto. E confidenciou que tinha vindo de Viana, que há dias em que nem tempo tem de comer em casa e que acaba por comer a sopa conjuntamente com eles.
- Para a semana vou à Praça da Alegria!
Vá. E leve consigo todos estes que vai encontrando, berre bem alto que a vida que levamos acomodadamente não é vida de gente enquanto ao nosso lado existir um irmão necessitado, de tudo, ou de muito do que temos e não repartimos!
É Quaresma. A esmola, que é a repartição do que se tem com o que não tem, é um dever cristão com vista à santificação de cada um. Repartição que deve ser efectuada com amor e não em obediência a um dever. O destinatário é o próprio Cristo!
13 de Março de 2009
C.
franjassociais@gmail.com
Para finalizar esta dissertação, que já vai longa, dois últimos pormenores que rematam a visita:
Nossa Senhora de Lourdes
“-Eu Sou A Imaculada Conceição”!
Esta afirmação solene serviria de guia para esta nossa noite. Noite marcadamente diferente pelo insólito, pelo inesperado, pelo improviso, sob a tutela sempre presente de MARIA…
-”Estou num curso, não posso ir!”, - disse uma;
-”Tenho reunião de crismados!”, - disse outro;
- “A E…. não pode ir hoje!”, - informou uma amiga.
Três falhas de peso e de importância. Paciência!… Pensei; Deus providenciará. O problema reside também nos carros; Será que chegam?
Outra amiga não deu sinal para arranjar as suas habituais sandes. Os que restávamos preparámos tudo como de costume.
À hora habitual ninguém tinha ainda aparecido. Da minha parte tinha preparado e carregado no carro tudo o que me competia: 4 garrafões de sumo, 50 sandes, 2 caixas com bolos e salgadinhos, tangerinas, sacos vazios e 150 copos. Àquela hora já ali devia estar a Alda mas até ela faltava! Nada que me perturbasse. Na Missa tinha colocado nas mãos da Mãe esta nossa noite a Ela especialmente dedicada.
Toca o telemóvel. Era o Luís!
- Está? Sou o Luís, vou mas ainda estou a sair de casa, será que?…
- Sim! Quando chegar à Boavista dê sinal para o ir buscar lá.
Ainda bem. Faltam uns mas Deus manda outros que não eram esperados…
Soa novamente o telemóvel. Desta vez é a Alda:
- Olhe, estou aqui há meia hora para entrar na autoestrada!
Só há que esperar. Entretanto chega a Maria de Lurdes - de LURDES! - que não vem só. Quando me quer fazer a surpresa nas apresentações é ela que fica surpreendida, tanto como eu!
- Olhe quem é!… Nós conhecemo-nos!…
Pois conhecemos! Do mesmo grupo de oração, trazidas por mão alheia!… Assim a Isabel, a Laura, a Manuela, a Helena e a Esmeralda, estas duas já habituais, engrossaram o grupinho.
Toca novamente o telemóvel. O Luís precisa de boleia. Meto-me no carro, dou à chave… e nada!… Repito a operação e nada! Não há nada a fazer. Não trabalha!
Remediamos com o carro da Alda.
À pressa mudou-se tudo para os outros carros.
Na oração pedimos a palavra para servir de mote para a nossa jornada pelas ruas da cidade, que foi tirada à sorte pela Isabel: São João, 19, 17-27: “A Crucifixão de Jesus”.
Quando começou a leitura minuciosa da morte de Jesus estava eu a pensar no que é que aquela passagem tinha a ver com a nossa noite quando, ao chegar ao final, me soam claras as palavras de Jesus para Sua Mãe - “Mulher, eis o Teu Filho!”, e para o discípulo - “Eis a Tua Mãe!”.
Estava feita a ligação. Maria, a Imaculada Conceição, A “Senhora de Lourdes”, é Aquela que nos foi dada por Mãe aos pés da Cruz, a TODOS, mesmo aos que nos esperam nas ruas do Porto, famintos, esquecidos, ostracizados. É o que lhes vamos dizer nesta noite, que, apesar dos males e da miséria com que são brindados pela sociedade têm no Céu uma Mãe que os estima como filhos tanto ou mais quanto estima os que dormem em camas quentinhas e fofas e com a barriguinha farta.
Com esta mensagem e esta intenção demos alento a alguns rezando com eles uma Avé Maria. E, enquanto rezava, era ver rolar pelas faces de uma uma lágrima envergonhada!
E o Paulo? O durão? Revoltado até à medula, violento de palavras, que só matava e esfolava?
- “Não fazes nada disso, Paulo! Tens um bom coração e isso impede-te de fazer essas asneiras! É contra o teu fundo bom…”.
- Sabes rezar a Avé-Maria?
- Não! Não rezo. Não acredito em Deus…
- Mas olha que Ele não está à espera que acredites para existir! Ele existe mesmo que tu penses que não existe. A Sua existência não depende do que tu pensas ou não.
Olha: vamos rezar a Avé- Maria pensando em ti como se fosse tu a rezá-la. Como só é para teu bem limita-te a ouvir, como amigo.
E começámos a rezar pausadamente. Ao mesmo tempo, o Paulo, sério, tímido, começou a rezar connosco, e, comovido, deixou esgueirar uma lágrima que se escondia sob a capa da insensibilidade!
Não conto agora o que nos disse. O Paulo, posso dizer, profetizava! Sei que Deus nos acompanhava e acompanha, mas o que disse é bom demais para o contar.
A noite começou atrasada, tivemos muitos encontros em Júlio Dinis, apareceu gente com necessidade de falar, de ouvir também, de sentir o calor da amizade que lhes levávamos, desinteressada, e isso demorou-nos mais ainda. Por isso encontrámos alguns poisos desertos. Visitámos os isolados, e seguimos ao Carregal. Nova surpresa!… Sozinho, utilitário humilde, de mala aberta ostentando duas grandes panelas uma com sopa de legumes e outra com canja de galinha, e pão, o sr. M. Rocha atendia os nossos amigos.

…duas grandes panelas…
Não resisti que não lhe perguntasse:
- Quem confecciona a sopa?
- É a minha mulher!
- E vem sozinho distribui-la?
- Todas as noites! Todas as noites estou aqui e, quando não acabo a sopa vou levâ-la por aí a outros locais, até já fui ao Aleixo.
É de pensar!… TODAS AS NOITES dois grandes panelões de sopa!… E uma só mulher a fazê-la e um só homem a distribui-la! E os gastos? Quantas vezes não esbarramos em entraves mesquinhos que nos impedem de ir mais além! Mas estes dão-nos uma grande lição: as coisas importantes são sempre simples; o que importa é querer e, quando se quer, também se faz. Tudo vai do começar, sem olhar para trás nem perder tempo a discutir os pormenores. Os pormenores virão depois.
Como nos fazem pequenos estes grandes exemplos!…
Restava ir ainda ao Aleixo. Sucediam-se as caras de fome, chupadas e surradas, e, de permeio, algumas carinhas frescas onde se não apagara ainda a juventude e a esperança. Foi com essas que nos detivemos mais. Falámos-lhes na Mãe do Céu, semeámos amor, deixámos esperança. Dizia-nos uma:
- Já fiz duas desintoxicações a frio.
- Porque voltaste?
- Porque em casa não acreditavam em mim e, se fazia ou acontecia alguma coisa mal era sempre eu a culpada. “Já estás com a dose?”; “estás passada?”. Não resisti. Não valia a pena andar a desintoxicar-me para nada. Voltei.
- Mas podes tentar novamente, olha que… e que… e que…
- Vou ver; talvez um dia…
- Olha, vamos pedir à Mãe que te ajude. Tens Fé?
- Vocês são de que religião?
- Católicos.
- Ah!… Eu com os Católicos vou. Acredito neles.
- Vamos dar as mãos e rezar uma Avé-Maria.
E foi a última rezada na rua nesta noite, acompanhada de mais uma lágrima comovida, saída do fundo do coração de quem se sabe drogada, mas, ao menos neste pedacinho de noite, com direito a tratamento de gente. Por isso grata.
- Adeus! Boa noite!… - ficou ela acenando à medida que o carro se afastava.
“- Mulher! Eis o Teu Filho!…”;
“- Filho! Eis a Tua MÃE!”.
C.
No próximo dia 11 volta a ser dia de ir à rua.
Vamos preparar tudo como de costume.
Há notícia de que o Colégio do Rosário serve uma refeição completa na rua nos dias úteis da semana em certos locais da cidade mas isso não nos impedirá de continuar a nossa volta e de deixar o nosso pequeno contributo. Se não serve de jantar servirá de merenda para o dia seguinte!
Boa preparação.
Abraços a todos.
C.
É o nome da nova iniciativa da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, que conta com a colaboração do Externato de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, da Escola Superior de Educação Paula Fracinetti, e o apoio de grupos de voluntariado.
Constará do fornecimento de 2ª. a Sexta-Feira de sopa e pão às pessoas sem-abrigo da cidade no bar da Paróquia, a partir de 26 de Fevereiro. Bom seria que o aumento de apoios possibilitasse ir ainda mais além.
Quem estiver interessado em apoiar ou oferecer-se como voluntário no serviço daquela pequena refeição deverá contactar a secretaria daquela Paróquia.
C.
Dia 28 à noite -21,00 horas - é dia de ir ao encontro dos nossos amigos da rua à Trindade. O encontro realiza-se sob novo figurino, nova postura, inaugurando um novo relacionamento com “o outro”, aqui representado pelos “irmãos da rua”.
Vai ser, certamente, um convívio são, e um muito forte e corajoso momento de evangelização.
Quem puder, compareça! E não estranhem a minha ausência porque, desta vez, não poderei estar.
Parece que foi ontem… Mas já passaram 3 anos desde que iniciámos esta nossa acção na rua, continuando outros dois que foram de aprendizagem. Mas aprender aprendemos todos os dias e é nessa abertura de coração à afinação de procedimentos que Deus nos fala e orienta.
As nossas saídas são quase sempre uma incógnita: limitamo-nos a ir e a aguardar as surpresas que nos esperam. E têm sido muitas! Esta Quarta-feira que parecia mísera (da confeitaria vinha um tabuleiro a meio, minguadíssimo!) acabou por ser um dia cheio, cheio, cheio!!!…
Ao chegar dizia-me a amiga Maria de Lurdes, companheira nestas andanças desde o início:
- Ai!… Hoje vem tanta coisa! As confeitarias de Leça dão-nos cada vez mais!
E lá foi inventariando o que trazia dado, e o que tinham preparado. Tudo a juntar ao açafate da Alda, sempre preparado com esmero e carinho, às 40 sandes da amiga Virgínia (que não vem mas nos empurra a partir de casa), às que nós trazíamos, à fruta, sumo, leite com chocolate constituía um reforço alimentar bem bom. Reforço para uns, base para outros.
O melhor, porém, estava reservado para a chegada: lá nos fomos juntando os habituais, descontando uma ou outra falta por sobreposição de obrigações, mas, a verdadeira surpresa veio com a amiga Maria de Lurdes que trazia como reforço quatro ocupantes de uma viatura!
Também juntei o último reforço, a amiga Lucília, já muito traquejada nesta missão e que andava como “free lancer”…
E o dia que parecia ser de miséria acabou por ser um dos mais abastados em tudo: farto de alimentos e com uma equipa abençoada de 13 elementos! Deus é assim, de vez em quando surpreende-nos como que a dizer-nos:
“-Não sois vós que fazeis…”!
Ainda não tínhamos preparado as coisas e já tínhamos dois clientes, um deles cheio de pressa para que lhe desamparássemos a loja para poder facturar mais uns cobres com o parqueamento nos três lugares que ocupávamos. A nossa paciência acabou por desarmar a quase que insolente e mal agardecida persistência.
Passámos rapidamente pela Boavista e ali nos demorámos apenas o tempo de servir dois amigos e de trocar algumas impressões com os Médicos do Mundo.
Em Júlio Dinis deparámos com o ajuntamento habitual e com o grupo de Nossa Senhora da Boavista - Foco - onde tivemos a surpresa de reencontrar o Sr. Pe. Paulo e a nossa embora nova mas já velha amiga Natasha. Deu tempo para conversar, para reforçar a distribuição do outro grupo, dar alguma roupa e cobertores, e um pouco de alegria a quem ali estava. E naquele meio destacava-se uma família quase inteira de uma mãe com as filhas e um tio, que ali continuaram depos da nossa partida, à espera, talvez, dos Samaritanos. São meninas em idade escolar que já deviam estar a dormir àquela hora…
A caminho da Câmara não perdemos a oportunidade de passar pelo Fernando e de visitar o seu novo vizinho de portal. Ainda estávamos ali quando uma mão caridosa dos vegetarianos lhes trouxe uma sopa quentinha. Mais abaixo, em S. Bento, via-se um numeroso grupo de evangélicos ostentando vistosos coletes reflectores. É assim: a Caridade não tem nome, não tem dono, tem espírito e destinatários.
Cavaqueámos com o Morais, aconchegado no portal ao lado da sua última aquisição com o qual não se importou de ficar na fotografia.
- Fiquei lá? - perguntou.
Mostrei-lhe a foto no visor.
- E a… vê-se bem?
Para lhe tirar dúvidas fiz nova foto agora mais dirigida à amiga. Ficaram contentes. Na próxima oportunidade tenho de lha levar.
Mais abaixo o Francisco, estava bem disposto e fora do sítio, sem preocupações de escrita.
Na Batalha já havia poucos; atendemos os que apareceram e fomos descendo a rua ao encontro dos que agora a tomaram como sua casa durante a noite. Um dormia profundamente, o outro foi a surpresa da noite e uma lição: pessoa que se nega a pedir mas faz um tremendo esforço para ganhar a vida, indo de aldeia em aldeia, rua a rua, porta a porta, sempre a pé, para vender peças que até são pesadas!
- Ganho cada vez menos por causa da concorrência, é preciso espremer a margem de lucro para poder vender alguma coisa e, mesmo assim, vende-se pouco!
- Tinha uma casa e as minhas coisas mas não podia suportar a despesa e tive de a deixar e vir para a rua. Mas tenho tudo guardado em casa de pessoas amigas!
E ali estava ele, perfeitamente deslocado, limpo e barbeado, conversa séria e atinada, conformado com as dificulades que a vida lhe reservou para os seus 59 anos…

Assim se dorme num portal…
O Carregal e o seu séquito de utentes aguardava-nos. O Fernando, bastante em baixo, parece que guarda segredos que não conta. Vítima de si próprio e das suas sucessivas más escolhas, creio que está sendo também vítima, como na história do lobo, de alertas infundados ou de oportunidades rejeitadas.
Temos de o acompanhar mais e melhor. Acabámos por lhe dar boleia até casa enquanto os outros carros seguiam até ao Aleixo.
Como quase sempre, ali voaram os sessenta sacos pré-preparados e o resto da fruta, sumo e bolos. Ali se vêem desembocar restos de gente já sumida na voracidade do consumo, e jovens incautos que a ilusão do prazer já prendeu no seu anzol. Na retina de alguns ficaram duas meninas lindas que se deslocavam num Audi que não desdenharam receber o que estava preparado para quem precisa. Ao receberem o “seu” saco iam-no trocando por outro contendo um tapete de arraiolos e objectos que pareciam ser de prata!
- Esse saco é meu!… - apressou-se a dizer uma delas. Sim, seu de posse, não de verdade porque o seu conteúdo ou foi subtraído à família ou a outrém e nem num caso nem no outro lhe pertenceria.
Rezámos no final colocando todos os nossos encontros da noite nas mãos de Deus por, com, em e para Maria apresentar a Jesus recordando a prece que lhe dirigiu na bodas de Caná:
- Não têm vinho!…
Sim, não temos vinho, pão, água, juízo, paciência, compaixão, gratidão, trabalho, amor, família, constância, respeito, paz, oração…
Mas temos o pedido constante de Jesus na Cruz ao Pai:
- Pai!… perdoa-lhes porque não sabem o que fazem!…
A pobre viúva deu tão pouco,
Mas deu tudo o que tinha para viver!…
Aos olhos de Deus, foi a maior oferta de todas as deixadas, nesse dia, no Templo!…
Ai, o frio que enregela os corpos
Sofridos
Desnutridos
Andrajosos
Ambulantes de ruas
Mais ou menos movimentadas,
E, agora,
Aliados à fome
De horas e horas
Dias e dias
Sem uma refeição reconfortante
Que aqueça o corpo
E dê alento à alma!
Que esta parece já não existir
Com tanto sofrer e mágoa no resistir!!…
Passei na rua,
E ouvi apregoar:
Meias para o frio:
18 pares por tanto…
Então, lembrei-me de vós
Irmãos sofredores
Sem tecto ou lareira
De estômago vazio
Enfrentando o frio!!…
Já alguma vez
Sentiste fome e frio ao mesmo tempo?
Doloroso por certo!!
Mas, disto nós temos,
E de nós bem perto!!…
Quando me deito
E tenho os pés frios,não adormeço,
E de vós não me esqueço!
Coloco uma botija
Com água bem quente
E que alívio se sente!!
Com este óbolo insignificante,
Nada comparado ao da viúva,
Poderei dar um pouco de conforto
A 56 pés nús e macerados
Pelos rigores do Inverno atormentados!!…
Dê
E verá que não custa!
A vida para si não foi madrasta
E sentir-se-á mais justa!
Que dizer mais?
Para quem não pôde ir - e desejamos francas e rápidas melhoras à nossa amiga Elvira - só resta dizer que vimos cheios…
Sim, vimos cheios de um sentimento de gratidão a Deus por esta alegria, pela experiência de uma noite dedicada ao outro, sem reservas nem egoismo.
De perto e de longe apareceu gente disposta a colaborar: da Paróquia, de Ermesinde, de Leça, do Porto, de Gaia, e aquele grupinho de Vale de Cambra… No final duas violas, vários cantores, bastantes vozes e muitos acompanhantes! À falta de ferrinhos ouvia-se das mesas o compasso marcado com os talheres!
Quando as coisas são de Deus correm tão bem!…
Sem grandes combinações prévias, tudo resultou fruto de impulsos individuais de doação, e, no final, deu esta bela composição em que os abraços e, até, os beijos se misturavam com os cantares e os sabores que das mesas deliciaram os paladares! Repetia-se…
- O meu irmão convidou-me a ir a casa dele mas eu disse-lhe que hoje era dia de estar com os meus amigos. Sim, porque estes são os meus amigos de todos os dias, e não os trocava pelo meu irmão!… - e limpava algumas lágrimas que teimosamente começavam a correr pelas suas faces. Enquanto dizia isto abaraçava-nos com carinho.
- A Família também tem o seu lugar. Há que reservar sempre um lugar para a família…
Mas, por mais conselhos que se dêem quem é que pode alterar noutrém o rumo do sentimento?
Ao arroz de carne confeccionado sob a batuta da D. Alzira, e ao café da Caritas, juntaram-se os caldos de galinha, as bebidas, o V.P., a fruta variada, os Bolos-Rei, Pão de Ló, a aletria e arroz doce, o pão, e as rabanadas, que constituíram os donativos do restante voluntariado… Só o Luís B. apareceu com 140 rabanadas (fresquinhas!) carinhosamente preparadas pela sua mãe! Houve fartura e houve qualidade.
E quis Deus gratificar-nos com a presença das Irmãs Filhas da Pobreza do SSmº. Sacramento, vulgarmente conhecidas pelo nome de “Toca de Assis”, nascidas e aparecidas aqui para acompanhar a pobreza que ali estava junta em muitos dos seus representantes desta cidade.
Alegres também, partilharam connosco esta alegria de bem-fazer. Judá, Laudes e Lumini, três nomes que vieram de longe e que ficarão a representar o início de um contacto que no futuro irá frutificar com abundância.
- “Faço anos na Terça-feira mas a prenda já a recebi hoje!”… - disse uma delas.
Mas, sem fazermos anos, também nós recebemos uma prenda. Vamos estimá-la. Não é em vão que aparece!…
Vamos marcar um dia para ir beber da experiência delas e procurarmos descortinar um pouco melhor o sentido da nossa acção de apoio na rua, e do que se poderá fazer em benefício de quem precisa. E combinaremos com a responsável uma saída connosco.
Amigos! As peças começam a encaixar!
Por hoje resta-nos a alma cheia e a noção do dever cumprido.
Deus é GRANDE e espera que continuemos a dizer-Lhe SIM!!!
Um abraço grande, do tamanho do mundo, para todos.
C.